quarta-feira, novembro 26, 2008

JUPITER aqui tão perto...

NEJM, 359(21):2195-2207
NEJM, 359(21):2280-2282 (Editorial)

Começando pelo princípio:
JUPITER, acrónimo para “Justification for the Use of Statins in Prevention: an Intervention Trial Evaluation Rosuvastatin”, cuja hipótese de investigação foi “O tratamento com rosuvastatina, 20 mg/dia, diminui ou não a taxa de ocorrência de eventos cardiovasculares major?”
Características do estudo: estudo aleatório, duplamente-cego, controlado e multicêntrico; avaliados 17.082 indíviduos, igualmente distribuídos por homens com mais de 50 anos e mulheres com mais de 60 anos, com determinações de LDL inferiores a 130 mg/dl e valores de PCR de alta sensibilidade iguais ou superiores a 2 mg/dl; com follow-up médio de 1,9 anos. (Tendo em consideração que a PCR de alta sensibilidade acima de 2 mg/dl é considerada um factor de risco cardiovascular, facto que, confesso, desconhecia…Talvez devido à visita fugaz ao serviço de Cardiologia!!!! ;-) )
Os resultados foram: redução significativa da ocorrência de eventos cardiovasculares major para o grupo da rosuvastatina (142 vs 251).

O estudo criou tal histerismo na comunidade científica, que ninguém tem dúvidas que vai revolucionar o modo actual de intervir no tratamento das dislipidemias. Resta saber se estes resultados vão ser extrapolados para outras estatinas, tendo em conta que a rosuvastatina é uma das estatinas mais caras do mercado e ainda sem genéricos…
Ou seja, este estudo surge na lógica já há muito prevista por nós, núcleo duro, de que as guidelines para intervenção farmacológica para o tratamento das dislipidemias iriam ser “pressionadas” de forma a que os valores recomendados para o início de tratamento com estatinas fosse cada vez mais baixo… Bom, não corrobora totalmente porque, é um facto que este estudo vem revolucionar as guidelines, não no sentido de baixar valores de LDL para iniciar farmacoterapia mas VAI MAIS LONGE: na prevenção, toca de tomar uma estatina!!! Gotcha? Perdoem-me estes rasgos de linguagem grosseira no meio de uma discussão científica, mas o nosso blog é mesmo assim, certo? Demonstrar que a irreverência também tem neurónios!

Não hesitem em ler a crítica ao estudo no editorial do NEJM da autoria do Dr. Mark Hlatky, que coloca questões muito interessantes, nomeadamente:
- a incidência significativamente superior de aumento da hemoglobina glicosilada e de diabetes no grupo tratado com rosuvastatina;
- a ausência de dados sobre a segurança na redução dos níveis de LDL para valores inferiores de 55 mg/dl;
- o valor da determinação da PCR de alta sensibilidade como factor independente e individual predictivo do risco cardiovascular, bem como a sua relevância nas manifestações clínicas (por exemplo, a doença coronária é afectada por muitos outros factores);
- a ausência de comparação com indivíduos com PCR de alta sensibilidade abaixo dos 2 mg/dl;
- o provável exagero da interpretação dos dados, baseada em métodos pouco rigorosos.

E eu acrescento: estatina - melhor prevenção que modificação de estilos de vida? … Talvez mais “fácil” mas mais cara também…
Ah…Escusado será dizer: o estudo foi patrocinado pela AstraZeneca.

Let´s the games begin!

PS: Qualquer incoerência na tradução EN-PT, por favor, não me linchem! Lancem!

3 comentários:

JFP disse...

Já aqui há uns anos largos recebi na farmácia um delegado da MSD a promover o Zocor, ainda os genéricos andavam nas lonas, que me entregou um "estudo" que queria fazer das estatinas as novas aspirinas...só tenho pena de não o estar a encontrar...

Pocoyo disse...

Grande MC, esta análise este resumo está sublime. Eu já li esse editorial na diagonal e concordo plenamente. Qualquer dia aos 20 anos já andamos todos a tomar estatinas. Aposto que este estudo vai servir para se trocar muito genérico por Rosuvastatina. Cada vez mais, a segurança deveria ser tão ou mais importante que a efectividade dos fármacos.

Anónimo disse...

Excelente MC. Um grande beijo de parabéns por estar de volta.

FBM

PS.: Só hoje, 8/12 reiniciei a visita. Força. O futuro é por aqui.